Batalha por Mariupol

Batalha por Mariupol

Há quatro anos, chegou ao fim a defesa da cidade de Mariupol — uma das páginas mais heroicas e trágicas da resistência ucraniana à agressão russa. Essa batalha durou 86 dias (de 24 de fevereiro a 20 de maio de 2022), sendo que, durante 82 dias, os defensores ucranianos lutaram em completo cerco. Foi ali que as forças russas cometeram graves crimes de guerra, provocando uma catástrofe humanitária e destruindo dezenas de milhares de vidas civis.

 

Mariupol — uma grande cidade industrial e importante porto no Mar de Azov — localizava-se próxima aos territórios do Donbas ocupados pela rússia desde 2014. A cidade simbolizava um Donbas ucraniano livre e próspero. Por isso, desde as primeiras horas da invasão em grande escala, Mariupol tornou-se um dos principais alvos das tropas russas. Com superioridade em efetivos militares, equipamentos e domínio total do ar e do mar, os invasores tentaram conquistar a cidade rapidamente pelo leste.

 

No entanto, o plano de uma ofensiva relâmpago fracassou nos primeiros dias da invasão. O comando russo então redirecionou colunas de veículos blindados que avançavam em direção a Zaporíjia para Mariupol. A cidade sitiada passou a concentrar grandes forças inimigas. Logo, Mariupol foi cercada e submetida a bombardeios constantes.

 

Durante o cerco, a aviação russa realizou até 100 ataques por dia contra a cidade. Desde o início, os russos alvejaram a infraestrutura energética e equipamentos de combate a incêndios. Em 16 de março, um avião russo lançou uma poderosa bomba sobre o Teatro Dramático de Mariupol, onde cerca de 1.200 civis se refugiavam dos bombardeios. Aproximadamente metade dessas pessoas morreu. Nem mesmo a palavra “CRIANÇAS”, escrita em letras gigantes diante do teatro, impediu o ataque. Os invasores também bombardearam hospitais lotados de feridos, incluindo uma maternidade.

 

Segundo a Prefeitura de Mariupol, cerca de 90% dos edifícios da cidade foram destruídos ou danificados pelos bombardeios russos. De acordo com diferentes estimativas, entre 25 mil e 75 mil civis morreram. Na prática, os russos destruíram uma cidade grande e próspera que, em 24 de fevereiro de 2022, tinha aproximadamente 450 mil habitantes. Milhares de moradores passaram por campos de filtragem russos, onde sofreram abusos e maus-tratos.

 

Os intensos combates urbanos duraram mais de dois meses. O principal símbolo da resistência tornou-se a usina metalúrgica Azovstal, que possuía vastos túneis subterrâneos. Para apoiar os defensores cercados, foi organizada uma ponte aérea em março e abril. Enfrentando perigo extremo, pilotos de helicópteros ucranianos realizaram voos para a cidade sitiada, levando munições e medicamentos, além de evacuarem feridos. Ao todo, foram realizadas sete missões desse tipo, envolvendo 16 helicópteros.
Milhares de soldados russos morreram nas batalhas por Mariupol, incluindo um general comandante de divisão e um capitão de primeira classe — vice-comandante da frota russa do Mar Negro — que liderava os fuzileiros navais russos na operação. Os invasores também perderam mais de cem veículos blindados, incluindo 78 tanques, quatro aeronaves e uma embarcação de desembarque.
 

 

No final de abril, o perímetro defensivo havia se reduzido ao território da fábrica Azovstal, transformada em uma verdadeira fortaleza. A partir de 3 de maio, as tropas russas iniciaram o assalto direto à usina, mas Azovstal continuou resistindo. Após sofrerem pesadas perdas, os russos intensificaram os bombardeios de artilharia e os ataques aéreos em escala sem precedentes. Bombas aéreas de grande potência perfuraram os abrigos subterrâneos, incluindo um bunker que funcionava como hospital. Como consequência, dezenas de soldados e médicos morreram.

 

Os defensores de Azovstal ficaram sem munição, enquanto os médicos já não tinham medicamentos nem analgésicos. Cerca de 600 feridos permaneciam em condições insalubres, sem água, comida ou atendimento adequado. Diante dessa situação, a liderança político-militar da Ucrânia ordenou que a guarnição de Mariupol preservasse a vida de seus combatentes. Assim, a resistência foi encerrada e, em 20 de maio, concluiu-se a retirada dos defensores de Azovstal.

 

A heroica guarnição de Mariupol cumpriu sua missão com honra. Durante quase três meses, os defensores resistiram a forças inimigas muito superiores. Graças à sua resistência, a Ucrânia ganhou tempo crucial para formar reservas, reorganizar suas tropas e receber apoio internacional. A heroica defesa de Mariupol frustrou os planos russos de uma vitória rápida.